A nota de conservação virou risco financeiro
Uma decisão da ANTT, uma bancada da UFU, uma ponte portuguesa e um viaduto romano: o que a quinzena ensina para quem cuida de OAE
Esta é a segunda edição do Vão Livre. O critério não mudou: entram só as notícias que mudam alguma decisão de quem cuida de ativo. E prefiro quatro itens fortes a oito fracos.
A quinzena teve duas notícias brasileiras de peso, mais uma regulatória e outra de laboratório: uma ponte portuguesa ganhando gêmeo digital na mesma semana em que o Governo de lá pediu vigilância permanente das obras de arte; e um viaduto romano que mostra que sistema de monitoramento também envelhece.
Na pesquisa, dois artigos mostram um caminhão instrumentado identificando a frequência natural da ponte numa única passagem, e eu confesso uma miopia sobre isso. Além das pontes, uma ferrovia britânica de 1,4 bilhão de libras (uns R$ 9,7 bilhões) comissionada dentro de um laboratório e 326 km de rodovias catalãs virando réplica digital. No fim, quem está comprando e assinando.
01 · Brasil · Regulação de OAE
ANTT admite pedido de reequilíbrio porque a nota de conservação de uma ponte no edital não batia com a estrutura encontrada em campo
A Decisão SUROD nº 1.294, de 28 de agosto, admitiu o pedido de recomposição do equilíbrio econômico-financeiro da Concessionária de Rodovia Nova 364 S.A. relativo à Ponte Candeias Velha, na BR-364, em Candeias do Jamari (RO). A concessionária alega que “a nota de conservação da Ponte Candeias Velha, constante no Cadastro de OAE, não corresponde à condição real da estrutura encontrada em campo” e que o estado da obra exigiu “intervenções de reforço estrutural não previstas originalmente”. A decisão é só de admissibilidade, sem caráter vinculativo: mérito e valores ainda serão analisados, conforme a IN ANTT nº 33/2024.
Fonte: O Tempo, 09/09/2026.
MEU COMENTÁRIO. Uma nota de conservação é um retrato: vale para o dia da inspeção e para o inspetor que a deu. Entre o cadastro que embasou o edital e a vistoria de quem assumiu passaram anos de tráfego pesado, e a nota não carrega o que aconteceu no intervalo. O mérito ainda vai ser julgado, mas o precedente já está posto: a classificação de OAE no edital virou risco financeiro, para os dois lados da mesa. A escala é a carteira inteira. O levantamento da Highways Today de 27 de agosto põe as concessões federais em R$ 306 bilhões, dos quais R$ 219 bilhões são operação, manutenção e serviços, em 36 contratos e 18.100 km. A pergunta que cada gestor deveria se fazer é quantas OAE da sua carteira têm nota anterior ao contrato e nenhuma medição desde então. A prova de carga que o DNIT contratou na ponte do Rio Tocantins, comentada na edição de agosto, é o instrumento que fecha essa lacuna: mede, em vez de classificar.
02 · Brasil · Instrumentação
UFU monta réplica de ponte em laboratório para treinar gêmeo digital com sensores e inteligência artificial
O grupo Durabilidade e Análise Estrutural (DurAE), da Faculdade de Engenharia Civil da Universidade Federal de Uberlândia, liderado pelo professor Antônio Carlos dos Santos, construiu em laboratório uma réplica estrutural de ponte instrumentada com sensores. Os dados alimentam uma cópia virtual da estrutura, acompanhada à distância e em tempo real, e a inteligência artificial gera “alertas preditivos que indicam a necessidade de intervenções pontuais”. O projeto está em estágio avançado e será apresentado no Uberlândia Summit, em 28 e 29 de outubro. O público declarado são gestores públicos e prefeituras sem equipe técnica para cumprir as normas.
Fonte: FAU/UFU, 27/08/2026.
MEU COMENTÁRIO. Pesquisa ainda não é produto, e a matéria não diz quais são os sensores nem em que ponte real o sistema vai rodar. Vale dizer, para não parecer que o assunto é futuro: já existe no Brasil ponte com gêmeo digital operando, caso real, com sensor instalado e série rodando. E não é só uma. O que falta é escala. E é aí que a UFU importa, por dois motivos. O primeiro é a origem: uma universidade federal montou a bancada porque prefeituras não têm como cumprir a NBR 9452 com equipe própria. E essa é a ponta da carteira que a compilação do SINICESP de 3 de setembro, a partir da Revista M&T de março, descreve como pior servida: mais de 113 mil OAE no país e apenas 12.142, menos de 11%, com monitoramento adequado. O segundo é o encaixe com o DNIT que, em abril, reestruturou o PROARTE pela IN nº 02/2026, com dez módulos para as mais de 5.800 OAE da autarquia e a promessa de monitoramento por satélite e IA. Satélite dá cobertura. A bancada da UFU está do outro lado da mesma moeda: a série temporal que o satélite não produz. Por isso, eu torço para que mais universidades entrem nessa linha, e com força: cada grupo de pesquisa que instrumenta uma ponte forma engenheiro que sabe ler série temporal. E é desse engenheiro que saem as empresas que vão fazer isso em escala. Hoje há muito mais OAE precisando de medição do que gente formada para medir.
03 · Portugal · Gêmeo digital
Infraestruturas de Portugal cria gêmeo digital da ponte Salgueiro Maia e o Governo pede vigilância permanente das obras de arte
Comunicado da IP de 2 de setembro: a ponte do IC10 sobre o Tejo, entre Almeirim e Santarém, terá “uma representação digital da ponte real, alimentada com dados recolhidos na própria infraestrutura”, em parceria com a CAEmate e com acompanhamento do LNEC. Sem valor, prazo ou tipo de sensor divulgados. Uma semana depois, em 9 de setembro, o ministro Miguel Pinto Luz anunciou no Parlamento um mecanismo permanente de avaliação de obras de arte e taludes, depois de o LNEC ter concluído 53 inspeções e de a IP ter inspecionado 1.400 obras de arte após as tempestades do início do ano, com mais de 1,1 bilhão de euros (cerca de R$ 6,5 bilhões) em medidas de resiliência. “Não podemos arriscar que danos não visíveis ponham em causa a segurança das nossas infraestruturas”, disse o ministro.
Fontes: Infraestruturas de Portugal, 02/09/2026 e CNN Portugal, 09/09/2026.
MEU COMENTÁRIO. O comunicado da IP é curto e o que ele não diz é justamente o que interessa: qual grandeza vai ser medida, com que frequência, e qual taxa de variação dispara alerta. A leitura política é mais clara que a técnica. Portugal inspecionou 1.400 obras de arte em poucos meses e a resposta do Governo foi pedir vigilância permanente: inspeção em massa produz retrato e o que o ministro pediu foi série. Para transformar isso em termo de referência, o artigo de Kużawa, Bień e Kliński, de 10 de agosto, dá o roteiro na ordem certa: mecanismo de dano, grandeza observável, sensor, aquisição, modelo, decisão. A plataforma vem por último.
04 · Itália · Monitoramento estrutural
Anas substitui o sistema de monitoramento de 2023 do viaduto Ansa del Tevere por um novo, permanente, com primeiros dados em novembro
O Viadotto Franco Della Scala, projeto de Riccardo Morandi na A91 Roma-Fiumicino, recebe um novo sistema permanente de sensores em tempo real, que substitui o sistema contratado em 2023. Instalação até o fim de setembro, primeiros resultados em novembro e plena operação em dezembro de 2026. O novo sistema convive com monitoramento topográfico, controles geotécnicos (inclinômetros e piezômetros) e análises com dados interferométricos de satélite. A estrutura é acompanhada de forma sistemática desde 1999. O projeto de manutenção extraordinária, de cerca de 15 milhões de euros (uns R$ 89 milhões), fica pronto em fevereiro de 2027.
Fonte: Il Faro Online, 08/09/2026.
MEU COMENTÁRIO. Sistema de monitoramento tem vida útil: o de 2023 está sendo trocado em 2026 e quem contrata SHM precisa orçar a substituição, e não só a instalação. A segunda lição é a convivência de escalas: satélite para o deslocamento lento da obra inteira, inclinômetro e piezômetro para a fundação, sensor em tempo real para a resposta da estrutura. Ninguém ali escolheu entre imagem e sensor; cada um mede uma taxa diferente. A terceira é o calendário: dois meses entre instalar e ter o primeiro dado útil, porque sensor precisa de linha de base antes de servir para decidir.
Na pesquisa · Portugal e Japão · Monitoramento indireto
Um caminhão instrumentado, numa única passagem, já identifica a frequência natural da ponte
Dois artigos revisados por pares atacam o mesmo problema por caminhos diferentes. Na Sensors (fevereiro de 2024), Mudahemuka e colegas, no Japão, usaram um caminhão de 10 toneladas com acelerômetros sincronizados por GPS no veículo e na ponte para estimar as frequências naturais da estrutura por funções de resposta em frequência, com validação numérica e em campo, para vãos curtos e médios. Na Structures (volume 91, online em 30 de julho de 2026), Komarizadehasl, Shen, Xia e José Matos propõem identificar as frequências modais numa única passagem, fundindo os dados de vários acelerômetros instalados no próprio veículo. Segundo o resumo, a validação de campo foi num viaduto rodoviário em Viana do Castelo, Portugal. A revisão sistemática de Lateef e Yu, de 2 de setembro, mostra o tamanho da onda: 141 estudos entre 2019 e 2025, com ênfase em pontes, dois terços com detecção de anomalia, e “limited historical benchmarks” entre as barreiras.
Fontes: Sensors, 06/02/2024 · Structures, vol. 91, online 30/07/2026 · Lateef e Yu, 02/09/2026
MEU COMENTÁRIO. Confesso uma miopia. Um amigo que vai começar a pesquisa dele no Brasil me disse que ia medir a ponte de dentro do caminhão e a minha primeira reação foi ceticismo: “sensor bom é sensor na estrutura”. Só que a linha avança em vários grupos ao mesmo tempo (Japão, Portugal, Estados Unidos) e, quando isso acontece, costuma haver um sentido técnico que eu não estava enxergando. O que o drive-by resolve é a triagem da carteira: uma frota instrumentada passa por dezenas de OAE num dia e entrega, para cada uma, uma assinatura modal repetível a custo quase zero por estrutura. Isso vale mais que um retrato, porque a repetição vira série, ainda que grossa. O que ele não resolve é o que acontece entre duas passagens, nem onde está o dano. Por isso leio o caminhão como o funil: ele aponta em qual OAE vale instalar o sensor permanente, que é onde a taxa fina mora. Se o meu amigo publicar, o trabalho dele aparece aqui.
Além das pontes
Ferrovia britânica de 1,4 bilhão de libras (cerca de R$ 9,7 bilhões) é comissionada dentro de um laboratório. A Network Rail ativou o ETCS Nível 2 em 24 km da East Coast Main Line, com o primeiro trem de passageiros em 31 de agosto. Rob Morris, da Siemens Mobility, disse que a interrupção do serviço foi minimizada porque testes e validação foram feitos remotamente, “usando um gêmeo digital num laboratório de integração” em Chippenham. Retorno medido em horas de via liberada é o argumento que convence quem opera ativo. IRJ, 02/09/2026
Catalunha põe 326 km de rodovias num gêmeo digital por 7,1 milhões de euros (cerca de R$ 42 milhões). Mais de 800 mil veículos por dia, 36 meses de prazo, 40% de cofinanciamento do FEDER. É gêmeo de tráfego, não de estrutura, mas tem o que quase nenhum projeto brasileiro publica: valor, escopo e prazo. El Español, 03/09/2026
O caminho sem volta
Mercado: quem está comprando, contratando e assinando. Quatro números da quinzena para levar para a reunião.

O gêmeo de projeto quer morar dentro do sistema que emite ordem de serviço. A Naviam, maior integradora independente de IBM Maximo, assinou em 7 de setembro acordo para comprar a Cohesive, braço de consultoria e implantação de Maximo da Bentley. A Bentley não sai: entra como sócia minoritária com assento no conselho, e as duas declaram a integração do Bentley Infrastructure Cloud com o Maximo como objetivo. Fechamento previsto para 30 de setembro, valor não divulgado, e a fonte é o comunicado das próprias empresas. Junto com a compra da MaintainX pela Autodesk, comentada na edição de agosto, são dois movimentos na mesma direção em poucos meses: modelo de engenharia colado ao EAM. PRWeb, 07/09/2026
Captura de realidade com métrica de mão de obra. No metrô de Dubai, o consórcio Mapa Limak CRRC escaneou duas estações e um estacionamento de 150.000 m² com precisão abaixo de 5 mm, em três meses com duas pessoas, no lugar de seis meses com três pessoas em dois turnos. A Blue Line terá 30 km e 14 estações, com abertura prevista para setembro de 2029. O material é release da Topcon, fornecedora do scanner, e os números são dela. É um retrato de altíssima qualidade, e continua sendo um retrato. Geo Week News, 26/08/2026
Contratos com valor público. Na quinzena, o gestor nacional português anunciou o gêmeo digital de uma ponte estaiada, uma agência italiana trocou o sistema de monitoramento de um viaduto acompanhado desde 1999, dentro de um projeto de 15 milhões de euros, uma ferrovia britânica de 1,4 bilhão de libras foi comissionada num laboratório e a Catalunha contratou 326 km por 7,1 milhões de euros, uns R$ 42 milhões. Nenhum deles é piloto. São contratos assinados, sistemas entrando em operação e empresas trocando de dono, e o intervalo entre um anúncio e o próximo está encurtando.
Se alguma dessas notícias mexe com uma decisão sua, escreva mim (veja e-mail abaixo). A pergunta que fica desta edição: quantas OAE da sua carteira têm nota de conservação anterior ao contrato e nenhuma medição desde então, e qual critério fez você adiar a instrumentação delas?
Até a próxima!
João Luis Casagrande , d2win , Digital Twins Solutions.
jlcasagrande@d2win.com.br